Agosto de 1979. Eu não sei dizer exatamente que horas são, pois tenho apenas três anos. Para mim, todas as horas são iguais depois que o sol se põe. Sei apenas que é noite. Agora, por exemplo, é noite. Papai, mamãe e eu estamos dormindo em nossa humilde casa. Nela não há forro nem tampouco piso. À noite, os morcegos ficam pendurados nas telhas. Às vezes o papai e a mamãe usam a vassoura para espantá-los. Ao invés de piso, o chão de nossa casa tem tijolos, mas a mamãe os mantêm cuidadosamente limpos, como se fossem piso de verdade. A porta aqui da sala chega a dar medo. Há um buraco enorme na parte de baixo, tão grande que eu acho que dá pra passar um cachorro pequeno por ela. No entanto, eu não tenho medo, pois sei que o papai está aqui para me proteger. Para conseguir água para beber e tomar banho, a mamãe usa a cisterna. Infelizmente eu ainda não tenho forças para ajudá-la. Sequer tamanho eu tenho para isso... Mas o que mais faz falta aqui em casa é a energia elétrica. Quando é noite, como agora, por exemplo, tudo fica escuro. As lamparinas e os lampiões a gás estão desligados. Eu estou acordado, com os olhos abertos, mas não vejo absolutamente nada. Ouço apenas o papai roncando, a mamãe se virando na cama e o tio Joaquim se ajeitando na cama do quarto onde a mamãe costuma. Sim, o tio Joaquim veio visitar-nos. Ele é marido da tia Alice, que é irmã do vovô Crotti. Em outras palavras, ele é praticamente meu “tio avô”. Gosto muito dele. Ele me dá muita atenção. Ele trouxe lá de São Joaquim um ursinho amarelinho de plástico que eu adoro! Eu gosto muito quando as pessoas vêm visitar-nos aqui em casa. Somos nós três... Às vezes sinto-me um pouco sozinho, como se ainda faltasse alguém na nossa família... Ainda de fraldas, para não sujar a cama caso eu tenha vontade de fazer xixi ou cocô, eu fico olhando para cima, sem ver nada. Apenas ouço a velha sintonia repetitiva: papai roncando, mamãe se virando, tio Joaquim se ajeitando. Eis que, de repente, ouço um estrondo na porta da sala e uma voz estranha:. “Haumhaumhaumhaum”. Eu nunca tinha ouvido uma voz daquelas! Não consigo entender nada do que aquela voz quer dizer! No entanto, eu me assusto e, obviamente, encho as calças de medo e começo a chorar. Aquela voz estranha e os batidos na porta, àquela hora da madrugada, também fazem com que a mamãe acorde assustada. Parece meio bêbada de sono. “Bem do céu, que barulho é esse?” O papai dá um salto da cama, como se tivesse em estado de alerta. Imediatamente ele pega sua espingarda, que ele chama de Vinchester, e segue em direção à porta. Ao sair à porta que separa o quarto da sala, ele encontra o tio Joaquim, já com o lampião na mão. “Tair, tem alguém batendo lá fora.”, diz ele, com um sotaque de descendente de italiano. Enquanto o papai e o tio Joaquim estão na sala, a mamãe vem ao meu socorro, para trocar-me as fraldas. Mal ela acaba de dobrar a fralda de pano, cuidadosamente, e a prende com um alfinete, o estranho lá fora volta a esmurrar a porta. Ao ouvir aquela voz esquisita, “haumhaumhaumhaum”, eu me assusto... e encho novamente as calças, assustado... “Calma, fi, não chora não. A mamãe tá aqui.”, diz a mamãe, tentando me acalmar. Lá na sala, o papai carrega sua espingarda e combina com o tio Joaquim uma forma de abrir a porta com segurança. “Tio, pode ser que ele esteja armado. Não dá pra saber. Vamos fazer assim: o senhor abre a porta, ilumina com o lampião e eu já saio com a espingarda apontada.”, diz o papai, em tom de segredo, para o tio Joaquim. Enquanto a mamãe retira a segunda fralda, cheia de cocô, e se prepara para dobrar a terceira fralda, aquele “haumhaumhaumhaum” e um outro murro na porta voltam a assustar-me, e eu, pela terceira vez, encho a fralda que está debaixo do meu bumbum, que sequer chegou a ser vestida em mim... Ao ouvir-me chorando, todo sujo de cocô, a mamãe grita. “Bem, pelo amor de Deus, dá um jeito aí! O Eduardo não pára de cagar de medo!” Sem esperar a mamãe terminar de falar, o tio Joaquim puxa a porta e o papai sai com a espingarda apontada para a cabeça do homem que estava batendo a porta. “Fala o que você quer, senão eu atiro!”, diz o papai, já com a ponta da espingarda encostada na testa dele. “haumhaumhaumhaum”, responde o rapaz, como se estivesse tentando se comunicar e não conseguisse. Então eu começo a chorar e borro de cocô (meu Deus do céu!) a quarta fralda da noite... O papai olha para o homem, que passa a mão na barriga e move as mãos em direção à boca, como se quisesse expressar que está com fome. Ele, abaixando a espingarda, diz sorrindo para o tio Joaquim. “Ah, tio, é só um surdo-mudo que está com fome”. O papai e o tio Joaquim se dirigem com o surdo-muro para a varanda, onde dão comida para ele e preparam um cantinho para que ele possa passar a noite ali. No quarto, a mamãe se vê desesperada à procura de mais uma fralda, na esperança de que o mudo não tente se expressar novamente com palavras. Caso contrário, acho que ela vai ter trabalho pelo resto da noite...
domingo, 10 de fevereiro de 2008
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